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Segunda-feira, Março 14, 2005
Estréia dia 30 de março a quarta e penúltima parte da
mega produção Os Sertões, montagem de José
Celso Martinez Corrêa que segundo o senador Eduardo
Suplicy fará com que a cidade de São Paulo viva um dos
acontecimentos mais importantes na história de sua vida
cultural e com repercussão em todo o Brasil. O Teatro
Oficina prepara o espetáculo ''A Luta'', a parte
conclusiva da história de Euclides da Cunha,
depois de já ter apresentado as partes iniciais ''A
Terra'', ''O Homem I'' e ''O Homem II''. Para coroar
definitivamente o momento, o polêmico diretor chega a um
acordo de paz com o empresário Sílvio Santos,
proprietário de quase todos os imóveis do quarteirão
onde se situa há 40 anos o histórico Teatro Oficina, na
Rua Jaceguai, no Bixiga.
Para entender o conflito, Sílvio Santos desejava
construir um conjunto de imóveis grande e moderno com
áreas de lazer, cultura, alimentação e comércio,
enquanto Zé Celso desejava preservar o Teatro Oficina,
expandindo-o para se transformar num Teatro-Estádio, do
projeto da arquiteta Lina Bo Bardi autora do prédio do
MASP. E foi assim que Isack Newton resolveu colocar
pimenta na história do teatro brasileiro, afinal dois
corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço, certo?
Errado...
Próximos da possibilidade de entendimento, tanto para
favorecer a preservação de um espaço histórico como
aquele, quanto para permitir que a cidade ganhasse com
um novo empreendimento comercial, estava mais do que na
hora de Sílvio Santos conhecer o Teatro Oficina. E ele
foi. Recebido pelo elenco formado por cerca de 50
pessoas, incluindo crianças, que cantaram para ele uma
das músicas de Os Sertões. Existe um vídeo desse
encontro rodando a internet... é visível a emoção de
Silvio Santos. Zé Celso explicou a história do teatro,
desde o primeiro prédio, que foi incendiado e tudo o que
ocorreu nos anos de inovação, depois de sua perseguição
política e exílio, até o esforço da retomada do teatro,
ao retornar ao Brasil. Nos anos 60, o espaço foi palco
para uma série de montagens históricas no pais como
Galileu, Galilei, de Bertholt Brecht, Os Pequenos
Burgueses, de Maximo Gorki, O Rei da Vela, de Oswald de
Andrade, e Roda Viva, de Chico Buarque de Hollanda. A
idéia de Zé Celso é abrir o Teatro para uma grande área
do terreno que se transformaria num estádio para
espetáculos como ''A Luta'', a tragédia do massacre de
Os Sertões.
Engraçado que a poucas semanas falava sobre os espaços
inutilizados aqui em Campinas, como os teatros de arena
do Taquaral e do Centro de Convivências, capazes de
megamopolizar platéias com espetáculos de grande
impacto. Enfim... novos arquitetos redesenharam o
projeto inicial encontrando espaços para a construção de
um shopping de múltiplo uso para o SBT. Há apenas alguns
ajustes para que os dois batam o martelo. Se isso
acontecer, dentro de algumas semanas o Grupo Sílvio
Santos poderá começar a construção do empreendimento e o
Oficina terá seu Estádio Teatral salvo para prosseguir
seu crescimento.
Deixando a política um pouco de lado, a uns dez anos eu
participei de dois encontros estudantis na cidade de São
José do Rio Pardo, onde Euclides da Cunha escreveu Os
Sertões. Nesses dois anos pude conhecer a fundo a
obra/reportagem da Guerra de Canudos. As duas primeiras
partes são mais "maçantes" relatam a realidade
nordestina com extrema minúcia. Em "A Luta" a ação e
reação se encontram e o livro pega fogo.
A Revista Bravo deste mês conta em detalhes toda a
expectativa desta estréia. Se alguém pensa que Zé Celso,
após décadas de trabalho em pró da arte já encerrou sua
busca por um mundo ideal, está redondamente enganado. Zé
Celso continua a pensar na revolução. Aos 67 anos, o
histórico diretor fala por metáforas de um visionário e
argumentos de um empreendedor cultural sobre o novo
salto que pretende dar com seu grupo. Talvez nunca o
teatro brasileiro tenha feito alguma coisa tão
pretensiosa, pelo menos quantitativamente, como "Os
Sertões".
Vejam que interessante. Sempre estudamos que os grandes
acontecimentos teatrais do Brasil aconteceram na década
de 70 durante a ditadura militar e a jovem geração como
eu apenas sonha com as montagens polêmicas de uma época
que a muito tempo já passou. Porém agora poderemos ver
esse novo momento de crescimento teatral... e ao vivo,
não pelos livros. Coincidência ou persistência, fizeram
que Zé Celso seja protagonista nessas duas épocas de
nossa história.
Zé Celso vislumbra um teatro cujo espaço lembra os
tempos de Shakespeare, voltados para as multidões. A
tarefa, de arquitetura ambiciosa, concluiria a
cenografia ideal para o encontro de culturas e tradições
que o diretor sempre perseguiu: "Estamos a ponto de
criar um teatro realmente popular, carnavalesco,
orgiástico, um teatro total com toda essa cultura da
mestiçagem, antropofágica, que, num certo sentido, tende
a ser hegemônica no mundo".
A grandiosidade da montagem já foi vista nas primeiras
partes, onde até Caetano Veloso foi comido pelo elenco.
O autor de "Letra só", estava sentado ao lado de amigos
e da mulher Paula, Caetano cantou, sorriu, aplaudiu e
elogiou o texto. O Teatro-Estádio estava lotado e, do
grupo de Caetés que tinham acabado de saborear o Bispo
Sardinha, alguém gritou: vamos comer Caetano!!! Assim
como a música de Adriana Calcanhoto "Vamos
comer Caetano, vamos desfrutá-lo e por aí vai".
Para encerrar, precisamos organizar uma excursão para
Sampa... sem falta... precisamos ser testemunhas desse
acontecimento antes que Os Sertões, seja multiplicado
pela transmissão para todo o Brasil do SBT.
Namastê
Domingo,
Fevereiro 20, 2005
Essa semana a notícia de que os teatros municipais de
Campinas estão com suas programações suspensas provocou
diversas manifestações na cidade. O edital de
agendamento do Centro de Convivência e do Castro Mendes,
realizado no final do ano passado, inclui espetáculos
montados dentro e fora da cidade. Os principais
reclamantes da ação tomada pela Secretaria de Cultura,
foram os administradores da APTC (Associação dos
Profissionais de Teatro de Campinas), que possuíam
algumas montagens agendadas no pacote suspenso.
Por coincidência, nos últimos dias tem despertado em mim
um desejo de levar o teatro para lugares alternativos,
fora dos palcos convencionáis. É impressionante como
galpões, fabricas e casas abandonadas enriquecem a
imaginação. Em 2004 realizei um exercício sobre a peça
Woyzeck, de Georg Büchner e em minhas pesquisas
encontrei uma montagem nacional deste texto que deu o
que falar. "Woyzeck, O Brasileiro" com Matheus
Nachtergaele e direção de Cibele Forjaz, levaram o
exército original de Büchner para uma olaria - detalhe:
uma olaria abandonada de verdade. Resultado... além de
um show de linguagem, os atores faziam tijólos de
verdade durante a apresentação.
Outra montagem que tirou da inércia italiana os
espectadores, aconteceu ano passado no Rio de Janeiro. A
atualíssima Medéia de Eurípedes ganhou a concepção da
diretora Bia Lessa, que mesmo estando dentro do teatro
Dulcina, descascou todo o luxo existente até transformar
o espaço em um galpão com a cara do seu espetáculo:
desconfortante. Usando os quatro elementos da natureza,
terra, fogo, água e ar, Renata Sorrah, José Mayer e
Cláudio Marzo estiveram a pouco mais de um metro de
distância da platéia que se molhava junto com o elenco
pelos respingos da chuva que lava literlmente a
história.
Ok... o que estás histórias tem haver com a ação da
Secretaria de Cultura? Simples. Campinas possui dois
maravilhosos espaços culturais que a muito tempo não são
utilizados pelos grupos artísticos daqui. A Concha
Acústica do Taquaral e o Teatro de Arena do
Centro de Convivência são na verdade duas máquinas do
tempo que estão paradas e enferrujando. Testemunhas de
um teatro mitológico, as arenas são um tipo de sala de
teatro em que o palco fica em nível inferior ao da
platéia, que se dispõe em semi-circulo envolvendo a
cena. Era assim que os gregos exibiam suas peças.
Não me recordo de outra cidade que possui dois espaços
assim. Ambos possuem uma capacidade para aproximadamente
5.000 lugares e que a muito tempo estão vazios. Não que
seja fácil conceber um espetáculo para esses lugares,
mas é injusto deixar que apenas as barracas da deliciosa
feira de artesanato da cidade ocupem o que poderia ser
GRANDE...
Como disse não deve ser fácil produzir uma montagem para
estes espaços. Mas hoje, sentado na catártica
arquibancada da Concha Acústica, viajei ao imaginar as
pessoas lotando os lugares em meio a magia das cenas
teatrais. Com uma decoração misturando a natureza do
lugar, com elementos cênicos como fogo e figurinos
especiais, se a noite estivesse fresca e agradável e o
espetáculo fosse pelo menos atraente, já seria o
bastante para ressuscitar o que jamais deveria ter
desaparecido... quem sabe um dia as máquinas do tempo
voltem a funcionar... de verdade...
Namastê...
Sábado,
Fevereiro 12, 2005
Atenção... esse filme é uma lição de casa para quem está
envolvido com o teatro e a dramaturgia. Lição de casa
mesmo. Em Busca da Terra do Nunca vai tomar as
dores da super-dissecada obra de James Barrie, Peter
Pan, defendendo a pureza da história com a mesma
agressividade daqueles que tentaram esmiuçá-la em
simbologias sexuais. Confesso que dentro da minha
ignorância não sabia que a história de Peter Pan tinha
sido escrita originalmente para os palcos... começou ai
a lição de casa.
Após sua última peça se revelar um grande fracasso, o
escritor James Matthew Barrie (Johnny Depp, mandando
ver), decepciona-se com a seriedade e a cerimônia da
perspectiva da imprensa e da platéia sobre como deveria
ser o espetáculo teatral. Tentando escrever uma outra
peça para redimir-se acaba cruzando o caminho da viúva
Sylvia e seus quatro filhos. A convivência com a família
é irresistível para Barrie que, em suas brincadeiras com
as crianças, encontra uma verdadeira válvula de escape
para sua imaginação - em troca, a família encontra em
Barrie um benfeitor, cujas brincadeiras servem para
curar as feridas causadas pela perda do pai e da
incerteza de seu futuro.
A maneira como Em Busca da Terra do Nunca nos mostra
esse envolvimento, transferindo os personagens
constantemente para o mundo de imaginação sugerido por
Barrie consegue apelar para a criança sonhadora que
existe dentro de qualquer um. Ou quase qualquer um. Das
quatro crianças, uma revela-se resistente às
brincadeiras. O jovem Peter é, de todos, o mais afetado
pela ausência do pai e interpreta a intromissão de
Barrie como uma tentativa de substituição da figura
paterna ¿ prato cheio para os meus amigos psicólogos.
É doce. Em Busca da Terra do Nunca é açucarado.
Deliciosamente açucarado. Mais do que mostrar a
verdadeira história que inspirou Peter Pan, o diretor
Marc Forster (do ótimo A Última Ceia) quer provar
um ponto de vista. O filme proporciona uma interessante
perspectiva sobre o processo criativo do autor, o que
para nós que estamos sempre procurando aprimorar o
processo da criação de um personagem, é um verdadeiro
orgasmo.
Esse processo de construção tornasse cada vez mais
interessante, quando o trabalho sai do papel e vai para
os palcos. A intenção do autor, não era apenas de
surpreender a platéia de seu teatro, mas sim de quebrar
certos rótulos que existia dentro do próprio meio
teatral. J. Barry reinventa a forma de comunicação entre
o ator e seu público, coloca em risco o resultado final
de sua obra com decisões polemicas como a distribuição
dos papeis e chega perto do seu abismo pessoal quando
decide encher as cadeiras do teatro com uma mágica digna
de uma verdadeira Sininho (essa pitada mágica eu não vou
revelar, assista o filme e se surpreenda também).
O filme é a revelação da fábula por trás da fábula.
Consegue fazer a imaginação e o espírito do público
voarem em cenas como a primeira inserção dos personagens
no navio-pirata. A primeira apresentação de Peter Pan é
tão excitante quanto o clímax de um filme de ação e mais
tocante do que filme de cachorrinho que morre no final.
Em Busca da Terra do Nunca quer devolver a magia para o
espetáculo. Em cenas como as descritas, fica difícil
dizer que não consegue.
Termina também, revelando que teatro infantil só será
exclusivo para as crianças se deixarmos a nossa morrer
dentro de nós. Enquanto isso não acontece, feche os
olhos e acredite no inacreditável...
É por essas e outras que Em Busca na Terra do Nunca terá
toda a minha torcida para ganhar os 7 Oscars que está
concorrendo no próximo dia 28 de fevereiro. Além de
melhor Melhor Ator (Johnny Depp), melhor Direção de
Arte, melhor Figurino, melhor Edição, melhor Trilha
Sonora e melhor Roteiro Adaptado, concorre a cereja do
bolo, Melhor Filme. Se não ganhar estes, pelo menos já é
o mais gostoso e interessante para nós. Namastê!
Quarta-feira, Fevereiro 09, 2005
Com o final do carnaval parece que finalmente 2005
começará de verdade. É como se essas primeiras semanas
do ano servissem como "pré-temporada" para os demais
eventos do ano. Durante alguns desfiles das escolas de
samba, diante daquele glamour todo, algumas pessoas
diziam "tanto trabalho para apenas um dia de
apresentação". Essa frase me trouxe certas
recordações...
Assim como as alegorias de uma escola de samba, a
produção de uma peça de teatro exige 100% de dedicação e
amor entre os envolvidos e muitas vezes... por poucos
dias de apresentações. Mas por que então tanto empenho?
Por que tanto trabalho sendo que poucos presenciarão o
resultado desta labuta de meses e meses? Acredito que a
resposta está no prazer da realização.
Pensando nesse assunto, me lembrei que á algumas semanas
encontrei em uma dessas Big Stores, um livro sobre a
criação cenográfica e figurinos: Auleum: A Quarta
Parede de José de Anchieta, além de conter
uma narração apaixonada sobre essa arte que muitas vezes
é ignorada pelo grande público de teatro, o livro é
recheado de desenhos de produção, concepções
estilísticas e detalhes sobre figurinos e personagens.
Pronto... crescia dentro de mim a necessidade de
documentar aos meus colegas de teatro algumas
observações sobre esse livro, mas como comprei esse mês
um outro livro, maravilhoso por sinal, que me desfalcou
o orçamento -Teatro Brasileiro, Um Panorama do Século
XX de Clovis Levi - não estava em condições
de comprar mais esse neste mês. A solução... espionagem.
Peguei meu celular com câmera fotográfica e fui para a
tal Big Store. Precisava ser discreto, pois acho que a
loja não ficaria feliz em ver alguém folhando e
fotografando seus livros, mas não tinha outra opção.
Peguei o livro na prateleira, sentei nas confortáveis
poltronas da loja e comecei a ler tranqüilamente as
memórias de José de Anchieta. Que delícia...
Confesso que não o conhecia. Que pena, afinal assim como
o nosso Amadeu Tilli, esse homem criou o
improvável nos palcos. Efeitos de cenários que se
transformam de acordo com as cenas e tudo com bastante
simplicidade. Ah... entre uma página e outra... Click!!!
Ao longo de uma trajetória de 40 anos de trabalho em
teatro, cinema, televisão e publicidade, o cenógrafo e
figurinista José de Anchieta pôde observar o quanto as
pessoas se equivocam com relação à nobre arte da
cenografia, arte pouco comentada e indevidamente
entendida, mas fundamental na criação de uma obra de
qualidade. A cenografia faz parte de um todo chamado
espetáculo e cabe ao cenógrafo delinear, através de
lápis, pincéis e tintas, um universo de fantasias.
Não há dúvida de que a cenografia é de importância
fundamental para o sucesso de uma montagem. A
cenotécnica e a iluminação permitem uma qualidade no
resultado final do espetáculo tal que, cada vez mais,
diretores e produtores buscam o auxílio de profissionais
de talento artístico inegável para a elaboração e
realização de seus projetos cênicos.
Mas a arte cênica é uma arte especial e difícil. Cabe ao
cenógrafo conciliar uma série de condições para permitir
uma resposta à proposta cênica do diretor. Tudo tem que
ser previsto, calculado com o maior rigor, para que
sejam evitados os exageros, para que se respeite o
sentimento exato da concepção cênica, sem apelar para
efeitos banais.
Podemos dizer, portanto, que cenografia é tudo o que é
registrado plasticamente em cena. Não podemos separar
cenário, figurino, adereços, iluminação ou até mesmo a
marcação de cena dos atores, porque também estabelecem
fluxos, massas e volumes num determinado espaço. Se num
espetáculo é o cenário que fala primeiro, se ele não
transmitir pela linguagem plástica, imediatamente, o
clima certo, o público poderá ser conduzido por caminhos
errados, distanciando-se do que se poderia chamar de
idéia correta da peça.
Pronto... ninguém me viu... missão cumprida!!
Namastê!
Segunda-feira, Janeiro 31, 2005
Não é novidade para ninguém a minha admiração por esse
texto de Aziz Bajur. Em 2003 quando o mineiro nos trouxe
uma cópia de Velório à Brasileira para leitura,
ficava cada vez mais difícil adaptar as situações nada
convencionais que os 8 personagens vivem na modesta casa
do falecido Abreu. Talvez por isso me diverti tanto
assistindo uma outra versão deste texto, que foi minha
primeira experiência com o público.
A peça conta a história de Zélia, uma pobre costureira
suburbana, inconsolável com a morte súbita de Abreu, seu
querido esposo. Ao seu lado, o casal de amigos, Biga e
Guiba, e a cunhada Eunice, seguram as pontas como podem
no velório.
Biga, a fofoqueira típica, não tem papas na língua e vai
detonando hilários comentários sobre o morto e a
situação da viúva. A coisa começa ficar preta quando
Teteo, um amigo do defunto, chega no velório e deixa
escapar para Zélia que seu marido saia com uma tal de
Sueli. Junto com esta descoberta vem a revelação que o
defunto havia comprado com Teteo e Pé-de-mesa um bilhete
premiado da loteria.
Mas onde está o bilhete? Só o morto sabe. A partir deste
mote, VB reserva muitas surpresas e gargalhadas. Vale
conferir essa que com certeza é a melhor das 14 peças
adultas da fraquíssima XX Campanha de
Populajkshfdgtesdxz do Teatro de Campinas. É a melhor
não por que as outras foram fracas, mas porque consegue
entreter a platéia com um humor ingênuo e sem apelações.
Fiel ao texto original e com um elenco em grande
harmonia.
O diretor Claudinei Silva, da vida no palco ao
personagem "Pé de Mesa" e consegue manter em extrema
ebulição as hilárias seqüências da história. Fabiana
Mello como "Eunice" e Lúcia Helena Macedo como "Abigail"
apimentam com muita graça e espontaneidade aquilo que
parece tudo, menos um velório. E é exatamente Abigail o
maior divertimento deste velório. Muito à vontade no
papel e com muita identificação com a platéia, Lucinha
consegue roubar todas as cenas em que solta suas
estilingadas.
Terça-feira, Janeiro 25, 2005
Depois de um ano em que grande parte dos melhores filmes
foram de animação, é refrescante assistir finalmente um
filme de gente grande. Closer - Perto Demais é
sexy e sofisticado, mas esses adjetivos são utilizados
da maneira mais perigosa possível. Eu já posso ver a
horda enfurecida com o novo filme de Mike Nichols,
especialmente as adolescentes que acreditam naquele
grande amor ainda por vir. Mas "Closer" é a mais pura
verdade, sem floreios nem firulas e na sua pior faceta.
O filme é baseado em uma peça de teatro inglesa, Closer,
do britânico Patrick Marber. O clima intimista de teatro
está presente a todo momento, praticamente só vemos os
quatro personagens principais, o que nos aproxima ainda
mais da trama, em um envolvimento quase que de
identificação. Uma das falas centrais da peça acabou
ficando de fora da montagem final do filme homônimo
(apesar de ter aparecido no trailer do filme). A frase é
algo como "Porque você jurou amor eterno para mim quando
tudo o que você queria era apenas sexo?". Nessas
palavras está a espinha dorsal da história de dois
casais em Londres, que encontram, desencontram, se unem
e separam no período de alguns anos.
Essa adaptação (cuja encenação no Brasil trazia o título
traduzido corretamente, "Mais Perto"), "Closer"
sobressai-se do fenômeno teatral dos anos 90, cuja
exploração sem barreiras das relações baseadas
principalmente na sexualidade era a temática do momento.
Não pense que o filme não passa de duas horas de um
artigo da Nova. Se todo filme que se preze defende uma
tese, "Closer" atesta o papel cada vez menor do afeto
nas relações "amorosas" contemporâneas. E o faz com
tamanha perspicácia. Em "Closer" as palavras são como
tratores e as pessoas as usam para atropelar umas as
outras. Não há sabão nessa estratosfera que limpe a boca
suja de "Closer".
A exploração das inter-relações humanas não é estranha
para o diretor Mike Nichols, que é uma das poucas
pessoas que já ganhou os 4 prêmios mais importantes do
showbizz americano: Oscar, Emmy, Grammy e Tony. Apenas
Barbra Streisand, Mel Brooks e Rita Moreno também
conseguiram esta proeza. Nichols cria no espectador a
angústia dos protagonistas: em cena, nós estamos presos
a uma pessoa que não particularmente gostamos, porém não
podemos escapar dela - surge uma necessidade de falar
tudo aquilo que estamos sentindo, fica impossível ficar
em silêncio. O espectador não consegue se acomodar num
personagem apenas, sempre queremos estar com aquele que
não está em cena. Algumas cenas que começam cômicas ou
simpáticas eventualmente caminham para o incômodo, como
por exemplo, a (excelente) cena do sexo virtual entre
Jude Law e Clive Owen, que revela-se surpreendentemente
longa, nos revelando uma conversa que se torna cada vez
mais imunda, bizarra e reveladora.
As músicas do filme estão intermitentes em todos os
setores técnicos do filme e eu gostaria que você
prestasse atenção em uma certa cena para solidificar
essa afirmação: perceba a trilha-sonora ao fundo na cena
em que Clive Owen e Natalie Portman encontram-se juntos
no clube de strip: "Smack my bitch up" (aquela mesma do
Prodigy) e "How soon is now" (aquela mesma do The Smiths)
- colocadas lado-a-lado, as canções cobrem todo o
argumento do filme: o menosprezo sexual e a carência
angustiante. Isso é confirmado pela canção que abre e
fecha o filme, "The blower's daughter" de Damien Rice,
na realidade, quando essa música tocou nos letreiros, eu
já sabia que tinha me fodido e que não haveria
escapatória.
Por ser uma peça, os atores são a força de "Closer" - e
o texto dá a cada um deles um momento sob os holofotes.
Jude Law está absolutamente desprezível como o escritor
hedonista e obcecado consigo mesmo; Julia Roberts
consegue manter uma sólida atuação contendo-se como a
indecisa fotógrafa (a "vilã" do filme); Natalie Portman,
mais uma vez, está de se adotar como o discutível centro
moral da trama, pois sua personagem vive da exploração
da sexualidade, mas anseia pelo verdadeiro afeto. Mas o
show é de Clive Owen. Seu personagem é, a princípio, um
pervertido pegajoso que, feito de gato-e-sapato,
descobre as regras do jogo e diverte-se ao manipular
àqueles de quem quer se vingar. Todos, porém, estão
absorvidos demais em suas cruzadas pelas próprias
satisfações pessoais e, numa sociedade sexualmente
deslumbrada, descobrem que a companhia nem de longe traz
consigo a verdade.
"Closer" é um tapa na cara de quem usa o cinema como
combustível para fantasias de romances maravilhosos. Não
é que o amor não exista, mas é inegável que "Closer"
advoga muito bem a afirmação contrária.
Segunda-feira, Janeiro 24, 2005
O Guarani do técnico Armando Renganeschi se prepara para
a viagem à Colômbia, onde vai disputar uma série de
amistosos. Moças da cidade aguardam ansiosas a
inauguração do Cine Alvorada. É começo de outono e a
temperatura começa a ficar mais amena. Menos no Palácio
dos Azulejos, de onde o prefeito Ruy Novaes, do Partido
Libertador, no início de seu segundo mandato, acaba de
iniciar uma disputa judicial com o Jockey Club por causa
do uso de uma área pública. Naqueles dias, os ouvidos do
prefeito estão atentos às informações passadas pelo
governador Adhemar de Barros, do Partido Social
Progressista, sobre a situação política no País. É nesse
clima que Campinas recebe a notícia do golpe militar que
mergulha o Brasil numa ditadura, da qual se livraria
apenas 21 anos mais tarde. Em meio a esses
acontecimentos que uma jovem e promissora atriz amadora
ensaia para repetir o sucesso da estréia da peça
Rapunzel, encenada no Conservatório Musical Carlos
Gomes: Regina Blois Duarte.
Calma... você não está lendo o site errado. Para
analisarmos Rapunzel, nova produção de infantil
que o CCG apresentou na XX Campanha de Popularização do
Teatro, precisamos retornar a 31 de março de 1964,
quando a campineira Regina Duarte estreou a 1ª versão
desta peça realizada pelo Conservatório e que durante
quatro décadas multiplicou-se em diversas versões pelos
palcos da cidade promovendo seus jovens e promissores
atores.
A história todo mundo já conhece: menina bonita presa em
uma torre, longas tranças, tem a bruxa e é claro... o
príncipe. Ah! Me esqueci do principal... todos viveram
felizes para sempre. O que poucos ainda se preocupam, é
que 40 anos depois Campinas está inteiramente mudada,
ganhou fama de cidade de oposição, transformou-se numa
das principais metrópoles do País. O agito diário em
nada lembra a tranqüilidade que imperou na cidade quando
os militares depuseram o presidente João Goulart, em
nome do combate à corrupção e do restabelecimento da
ordem. O cenário bonito de uma cidade aconchegante deu
espaço para o caos urbano, a violência e o desemprego.
Campinas tenta se enganar na ilusão de ser um pólo de
produções artísticas, arrotando para todos os lados que
seus espetáculos são exemplos de qualidade e bom gosto,
porém terá um fim trágico se não começar a olhar para
frente e esquecer um pouco o seu passado. Prova disso é
a tal XX Camppaxswtnhabsgdghdghd... de teatro.
Que saco!!! Já deveria ter parado lá pela XIII. Nem a
nossa promissora Regina é mais a mesma. Depois de expor
sua opinião no horário eleitoral gratuito em 2002,
dizendo estar temerosa que Lula (então candidato à
presidência) esfarelasse as conquistas do Plano Real e
de que não tiraria do papel nenhuma promessa social,
virou alvo da pancadaria de muitos artistas e de lá para
cá está meio na geladeira da Globo até conseguir
requilibrar sua imagem.
Enquanto vivemos do passado, nossos vizinhos mais
próximos como a Unicamp, que deveríamos ter como
parceiros e aliados na tentativa da construção teatral,
alcançaram em 2004 a consagração com seu Shi-Zen, 7
Cuias, que viajou o Brasil e não deu nem uma paradinha
no Centro de Convivências. Além disso, exportou seu
talento para a minissérie Hoje é dia de Maria!, na
criação e concepção da direção de arte e dos
personagens.
Está na hora da do conceito "Rapunzel" crescer...
Quarta-feira, Janeiro 19, 2005
O grupo Cia Arco-Íris de Valinhos, estreou na 20ª
Campanha de Popularização do Teatro de Campinas, o seu
espetáculo Soltando verbo, de Zé Carlos de
Andrade. Quem quiser ainda pode assistir hoje a última
apresentação, no Centro de Convivência Cultural. O
ingresso custa R$3,00... se bem que o estacionamento
logo a frente custa R$7,00.
A peça aborda a comunicação literária com piadas,
poemas, sátiras e várias histórias que levam o público a
uma viagem com muita criatividade. O enredo não permite
a platéia um minuto de distração, misturando folclore e
gramática e até mesmo pluralidade cultural, o texto é na
verdade uma declaração de amor a Língua portuguesa. Tudo
serve como material a ser usado para ensinar de forma
divertida. Usando uma linguagem fácil de interpretar, os
quatro personagens adolescentes levam o público a
conhecer desde os primórdios da história do homem até os
dias atuais, dando ênfase aos temas brasileiros.
Zé Carlos de Andrade parece que se define melhor
quando analisamos sua obra de forma didática. No texto
"Um Tupi tangendo um alaúde", a vida de Mário de Andrade
é encenada com ênfase nas provas de vestibular e rodou
por diversas escolas e cursinhos do país. "Soltando o
Verbo" não é assim tão aplicável, sua preocupação
gramatical está mais interessada no cotidiano ou até no
dito popular. Prova disso é a hilária seqüência onde
atribuem a origem do samba brasileiro a uma briga de
facas entre malandros cariocas, com um jogral de "eu ti
cutuco, eu ti cutuco, eu ti cutuco...".
Em 45 minutos de apresentação, no final ainda somos
levados para dentro da obra de Ariano Suassuna, "O Auto
da Compadecida". É ai que entra o nosso versátil
Amadeu Tilli renasce o seu João Grilo, personagem
que lhe rendeu vários prêmios e que mesmo com a massiva
popularização da história pelo cinema e televisão,
conseguiu entreter a platéia com bastante carisma.
Não posso encerrar sem fazer nenhum comentário sobre a
goteira que existe no meio do palco do Centro de
Convivência. Durante todo o espetáculo, além dos atores
terem que se preocupar com todo o ritmo e marcação da
peça, eles ainda tiveram que se superar para que a
platéia não prestasse mais atenção na goteira do que
neles. É uma vergonha o ator ter que se submeter a uma
cena como essa em um teatro como o do Centro de
Convivência... digo isso, porque a goteira já vai fazer
aniversário naquele lugar!
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