Website do ator e psicólogo Rafael Santin. Estuda artes dramáticas no Conservatório Carlos Gomes em Campinas-SP. Além da recente produção "Revolução na América do Sul" de Boal, atuou na homenagem "Cacilda Becker", ambas com a direção de Abílio Guedes. Atuou também no curta "Dois Atos".

Segunda-feira, Março 14, 2005


Estréia dia 30 de março a quarta e penúltima parte da mega produção Os Sertões, montagem de José Celso Martinez Corrêa que segundo o senador Eduardo Suplicy fará com que a cidade de São Paulo viva um dos acontecimentos mais importantes na história de sua vida cultural e com repercussão em todo o Brasil. O Teatro Oficina prepara o espetáculo ''A Luta'', a parte conclusiva da história de Euclides da Cunha, depois de já ter apresentado as partes iniciais ''A Terra'', ''O Homem I'' e ''O Homem II''. Para coroar definitivamente o momento, o polêmico diretor chega a um acordo de paz com o empresário Sílvio Santos, proprietário de quase todos os imóveis do quarteirão onde se situa há 40 anos o histórico Teatro Oficina, na Rua Jaceguai, no Bixiga.

Para entender o conflito, Sílvio Santos desejava construir um conjunto de imóveis grande e moderno com áreas de lazer, cultura, alimentação e comércio, enquanto Zé Celso desejava preservar o Teatro Oficina, expandindo-o para se transformar num Teatro-Estádio, do projeto da arquiteta Lina Bo Bardi autora do prédio do MASP. E foi assim que Isack Newton resolveu colocar pimenta na história do teatro brasileiro, afinal dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço, certo? Errado...

Próximos da possibilidade de entendimento, tanto para favorecer a preservação de um espaço histórico como aquele, quanto para permitir que a cidade ganhasse com um novo empreendimento comercial, estava mais do que na hora de Sílvio Santos conhecer o Teatro Oficina. E ele foi. Recebido pelo elenco formado por cerca de 50 pessoas, incluindo crianças, que cantaram para ele uma das músicas de Os Sertões. Existe um vídeo desse encontro rodando a internet... é visível a emoção de Silvio Santos. Zé Celso explicou a história do teatro, desde o primeiro prédio, que foi incendiado e tudo o que ocorreu nos anos de inovação, depois de sua perseguição política e exílio, até o esforço da retomada do teatro, ao retornar ao Brasil. Nos anos 60, o espaço foi palco para uma série de montagens históricas no pais como Galileu, Galilei, de Bertholt Brecht, Os Pequenos Burgueses, de Maximo Gorki, O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, e Roda Viva, de Chico Buarque de Hollanda. A idéia de Zé Celso é abrir o Teatro para uma grande área do terreno que se transformaria num estádio para espetáculos como ''A Luta'', a tragédia do massacre de Os Sertões.



Engraçado que a poucas semanas falava sobre os espaços inutilizados aqui em Campinas, como os teatros de arena do Taquaral e do Centro de Convivências, capazes de megamopolizar platéias com espetáculos de grande impacto. Enfim... novos arquitetos redesenharam o projeto inicial encontrando espaços para a construção de um shopping de múltiplo uso para o SBT. Há apenas alguns ajustes para que os dois batam o martelo. Se isso acontecer, dentro de algumas semanas o Grupo Sílvio Santos poderá começar a construção do empreendimento e o Oficina terá seu Estádio Teatral salvo para prosseguir seu crescimento.

Deixando a política um pouco de lado, a uns dez anos eu participei de dois encontros estudantis na cidade de São José do Rio Pardo, onde Euclides da Cunha escreveu Os Sertões. Nesses dois anos pude conhecer a fundo a obra/reportagem da Guerra de Canudos. As duas primeiras partes são mais "maçantes" relatam a realidade nordestina com extrema minúcia. Em "A Luta" a ação e reação se encontram e o livro pega fogo.


A Revista Bravo deste mês conta em detalhes toda a expectativa desta estréia. Se alguém pensa que Zé Celso, após décadas de trabalho em pró da arte já encerrou sua busca por um mundo ideal, está redondamente enganado. Zé Celso continua a pensar na revolução. Aos 67 anos, o histórico diretor fala por metáforas de um visionário e argumentos de um empreendedor cultural sobre o novo salto que pretende dar com seu grupo. Talvez nunca o teatro brasileiro tenha feito alguma coisa tão pretensiosa, pelo menos quantitativamente, como "Os Sertões".



Vejam que interessante. Sempre estudamos que os grandes acontecimentos teatrais do Brasil aconteceram na década de 70 durante a ditadura militar e a jovem geração como eu apenas sonha com as montagens polêmicas de uma época que a muito tempo já passou. Porém agora poderemos ver esse novo momento de crescimento teatral... e ao vivo, não pelos livros. Coincidência ou persistência, fizeram que Zé Celso seja protagonista nessas duas épocas de nossa história.

Zé Celso vislumbra um teatro cujo espaço lembra os tempos de Shakespeare, voltados para as multidões. A tarefa, de arquitetura ambiciosa, concluiria a cenografia ideal para o encontro de culturas e tradições que o diretor sempre perseguiu: "Estamos a ponto de criar um teatro realmente popular, carnavalesco, orgiástico, um teatro total com toda essa cultura da mestiçagem, antropofágica, que, num certo sentido, tende a ser hegemônica no mundo".



A grandiosidade da montagem já foi vista nas primeiras partes, onde até Caetano Veloso foi comido pelo elenco. O autor de "Letra só", estava sentado ao lado de amigos e da mulher Paula, Caetano cantou, sorriu, aplaudiu e elogiou o texto. O Teatro-Estádio estava lotado e, do grupo de Caetés que tinham acabado de saborear o Bispo Sardinha, alguém gritou: vamos comer Caetano!!! Assim como a música de Adriana Calcanhoto "Vamos comer Caetano, vamos desfrutá-lo e por aí vai".

Para encerrar, precisamos organizar uma excursão para Sampa... sem falta... precisamos ser testemunhas desse acontecimento antes que Os Sertões, seja multiplicado pela transmissão para todo o Brasil do SBT.

Namastê


  Domingo, Fevereiro 20, 2005


Essa semana a notícia de que os teatros municipais de Campinas estão com suas programações suspensas provocou diversas manifestações na cidade. O edital de agendamento do Centro de Convivência e do Castro Mendes, realizado no final do ano passado, inclui espetáculos montados dentro e fora da cidade. Os principais reclamantes da ação tomada pela Secretaria de Cultura, foram os administradores da APTC (Associação dos Profissionais de Teatro de Campinas), que possuíam algumas montagens agendadas no pacote suspenso.

Por coincidência, nos últimos dias tem despertado em mim um desejo de levar o teatro para lugares alternativos, fora dos palcos convencionáis. É impressionante como galpões, fabricas e casas abandonadas enriquecem a imaginação. Em 2004 realizei um exercício sobre a peça Woyzeck, de Georg Büchner e em minhas pesquisas encontrei uma montagem nacional deste texto que deu o que falar. "Woyzeck, O Brasileiro" com Matheus Nachtergaele e direção de Cibele Forjaz, levaram o exército original de Büchner para uma olaria - detalhe: uma olaria abandonada de verdade. Resultado... além de um show de linguagem, os atores faziam tijólos de verdade durante a apresentação.

Outra montagem que tirou da inércia italiana os espectadores, aconteceu ano passado no Rio de Janeiro. A atualíssima Medéia de Eurípedes ganhou a concepção da diretora Bia Lessa, que mesmo estando dentro do teatro Dulcina, descascou todo o luxo existente até transformar o espaço em um galpão com a cara do seu espetáculo: desconfortante. Usando os quatro elementos da natureza, terra, fogo, água e ar, Renata Sorrah, José Mayer e Cláudio Marzo estiveram a pouco mais de um metro de distância da platéia que se molhava junto com o elenco pelos respingos da chuva que lava literlmente a história.

Ok... o que estás histórias tem haver com a ação da Secretaria de Cultura? Simples. Campinas possui dois maravilhosos espaços culturais que a muito tempo não são utilizados pelos grupos artísticos daqui. A Concha Acústica do Taquaral e o Teatro de Arena do Centro de Convivência são na verdade duas máquinas do tempo que estão paradas e enferrujando. Testemunhas de um teatro mitológico, as arenas são um tipo de sala de teatro em que o palco fica em nível inferior ao da platéia, que se dispõe em semi-circulo envolvendo a cena. Era assim que os gregos exibiam suas peças.

Não me recordo de outra cidade que possui dois espaços assim. Ambos possuem uma capacidade para aproximadamente 5.000 lugares e que a muito tempo estão vazios. Não que seja fácil conceber um espetáculo para esses lugares, mas é injusto deixar que apenas as barracas da deliciosa feira de artesanato da cidade ocupem o que poderia ser GRANDE...



Como disse não deve ser fácil produzir uma montagem para estes espaços. Mas hoje, sentado na catártica arquibancada da Concha Acústica, viajei ao imaginar as pessoas lotando os lugares em meio a magia das cenas teatrais. Com uma decoração misturando a natureza do lugar, com elementos cênicos como fogo e figurinos especiais, se a noite estivesse fresca e agradável e o espetáculo fosse pelo menos atraente, já seria o bastante para ressuscitar o que jamais deveria ter desaparecido... quem sabe um dia as máquinas do tempo voltem a funcionar... de verdade...

Namastê...


  Sábado, Fevereiro 12, 2005


Atenção... esse filme é uma lição de casa para quem está envolvido com o teatro e a dramaturgia. Lição de casa mesmo. Em Busca da Terra do Nunca vai tomar as dores da super-dissecada obra de James Barrie, Peter Pan, defendendo a pureza da história com a mesma agressividade daqueles que tentaram esmiuçá-la em simbologias sexuais. Confesso que dentro da minha ignorância não sabia que a história de Peter Pan tinha sido escrita originalmente para os palcos... começou ai a lição de casa.

Após sua última peça se revelar um grande fracasso, o escritor James Matthew Barrie (Johnny Depp, mandando ver), decepciona-se com a seriedade e a cerimônia da perspectiva da imprensa e da platéia sobre como deveria ser o espetáculo teatral. Tentando escrever uma outra peça para redimir-se acaba cruzando o caminho da viúva Sylvia e seus quatro filhos. A convivência com a família é irresistível para Barrie que, em suas brincadeiras com as crianças, encontra uma verdadeira válvula de escape para sua imaginação - em troca, a família encontra em Barrie um benfeitor, cujas brincadeiras servem para curar as feridas causadas pela perda do pai e da incerteza de seu futuro.

A maneira como Em Busca da Terra do Nunca nos mostra esse envolvimento, transferindo os personagens constantemente para o mundo de imaginação sugerido por Barrie consegue apelar para a criança sonhadora que existe dentro de qualquer um. Ou quase qualquer um. Das quatro crianças, uma revela-se resistente às brincadeiras. O jovem Peter é, de todos, o mais afetado pela ausência do pai e interpreta a intromissão de Barrie como uma tentativa de substituição da figura paterna ¿ prato cheio para os meus amigos psicólogos.

É doce. Em Busca da Terra do Nunca é açucarado. Deliciosamente açucarado. Mais do que mostrar a verdadeira história que inspirou Peter Pan, o diretor Marc Forster (do ótimo A Última Ceia) quer provar um ponto de vista. O filme proporciona uma interessante perspectiva sobre o processo criativo do autor, o que para nós que estamos sempre procurando aprimorar o processo da criação de um personagem, é um verdadeiro orgasmo.

Esse processo de construção tornasse cada vez mais interessante, quando o trabalho sai do papel e vai para os palcos. A intenção do autor, não era apenas de surpreender a platéia de seu teatro, mas sim de quebrar certos rótulos que existia dentro do próprio meio teatral. J. Barry reinventa a forma de comunicação entre o ator e seu público, coloca em risco o resultado final de sua obra com decisões polemicas como a distribuição dos papeis e chega perto do seu abismo pessoal quando decide encher as cadeiras do teatro com uma mágica digna de uma verdadeira Sininho (essa pitada mágica eu não vou revelar, assista o filme e se surpreenda também).

O filme é a revelação da fábula por trás da fábula. Consegue fazer a imaginação e o espírito do público voarem em cenas como a primeira inserção dos personagens no navio-pirata. A primeira apresentação de Peter Pan é tão excitante quanto o clímax de um filme de ação e mais tocante do que filme de cachorrinho que morre no final. Em Busca da Terra do Nunca quer devolver a magia para o espetáculo. Em cenas como as descritas, fica difícil dizer que não consegue.

Termina também, revelando que teatro infantil só será exclusivo para as crianças se deixarmos a nossa morrer dentro de nós. Enquanto isso não acontece, feche os olhos e acredite no inacreditável...

É por essas e outras que Em Busca na Terra do Nunca terá toda a minha torcida para ganhar os 7 Oscars que está concorrendo no próximo dia 28 de fevereiro. Além de melhor Melhor Ator (Johnny Depp), melhor Direção de Arte, melhor Figurino, melhor Edição, melhor Trilha Sonora e melhor Roteiro Adaptado, concorre a cereja do bolo, Melhor Filme. Se não ganhar estes, pelo menos já é o mais gostoso e interessante para nós. Namastê!


  Quarta-feira, Fevereiro 09, 2005


Com o final do carnaval parece que finalmente 2005 começará de verdade. É como se essas primeiras semanas do ano servissem como "pré-temporada" para os demais eventos do ano. Durante alguns desfiles das escolas de samba, diante daquele glamour todo, algumas pessoas diziam "tanto trabalho para apenas um dia de apresentação". Essa frase me trouxe certas recordações...

Assim como as alegorias de uma escola de samba, a produção de uma peça de teatro exige 100% de dedicação e amor entre os envolvidos e muitas vezes... por poucos dias de apresentações. Mas por que então tanto empenho? Por que tanto trabalho sendo que poucos presenciarão o resultado desta labuta de meses e meses? Acredito que a resposta está no prazer da realização.



Pensando nesse assunto, me lembrei que á algumas semanas encontrei em uma dessas Big Stores, um livro sobre a criação cenográfica e figurinos: Auleum: A Quarta Parede de José de Anchieta, além de conter uma narração apaixonada sobre essa arte que muitas vezes é ignorada pelo grande público de teatro, o livro é recheado de desenhos de produção, concepções estilísticas e detalhes sobre figurinos e personagens.

Pronto... crescia dentro de mim a necessidade de documentar aos meus colegas de teatro algumas observações sobre esse livro, mas como comprei esse mês um outro livro, maravilhoso por sinal, que me desfalcou o orçamento -Teatro Brasileiro, Um Panorama do Século XX de Clovis Levi - não estava em condições de comprar mais esse neste mês. A solução... espionagem.



Peguei meu celular com câmera fotográfica e fui para a tal Big Store. Precisava ser discreto, pois acho que a loja não ficaria feliz em ver alguém folhando e fotografando seus livros, mas não tinha outra opção. Peguei o livro na prateleira, sentei nas confortáveis poltronas da loja e comecei a ler tranqüilamente as memórias de José de Anchieta. Que delícia...

Confesso que não o conhecia. Que pena, afinal assim como o nosso Amadeu Tilli, esse homem criou o improvável nos palcos. Efeitos de cenários que se transformam de acordo com as cenas e tudo com bastante simplicidade. Ah... entre uma página e outra... Click!!!

Ao longo de uma trajetória de 40 anos de trabalho em teatro, cinema, televisão e publicidade, o cenógrafo e figurinista José de Anchieta pôde observar o quanto as pessoas se equivocam com relação à nobre arte da cenografia, arte pouco comentada e indevidamente entendida, mas fundamental na criação de uma obra de qualidade. A cenografia faz parte de um todo chamado espetáculo e cabe ao cenógrafo delinear, através de lápis, pincéis e tintas, um universo de fantasias.



Não há dúvida de que a cenografia é de importância fundamental para o sucesso de uma montagem. A cenotécnica e a iluminação permitem uma qualidade no resultado final do espetáculo tal que, cada vez mais, diretores e produtores buscam o auxílio de profissionais de talento artístico inegável para a elaboração e realização de seus projetos cênicos.

Mas a arte cênica é uma arte especial e difícil. Cabe ao cenógrafo conciliar uma série de condições para permitir uma resposta à proposta cênica do diretor. Tudo tem que ser previsto, calculado com o maior rigor, para que sejam evitados os exageros, para que se respeite o sentimento exato da concepção cênica, sem apelar para efeitos banais.



Podemos dizer, portanto, que cenografia é tudo o que é registrado plasticamente em cena. Não podemos separar cenário, figurino, adereços, iluminação ou até mesmo a marcação de cena dos atores, porque também estabelecem fluxos, massas e volumes num determinado espaço. Se num espetáculo é o cenário que fala primeiro, se ele não transmitir pela linguagem plástica, imediatamente, o clima certo, o público poderá ser conduzido por caminhos errados, distanciando-se do que se poderia chamar de idéia correta da peça.

Pronto... ninguém me viu... missão cumprida!!

Namastê!


  Segunda-feira, Janeiro 31, 2005


Não é novidade para ninguém a minha admiração por esse texto de Aziz Bajur. Em 2003 quando o mineiro nos trouxe uma cópia de Velório à Brasileira para leitura, ficava cada vez mais difícil adaptar as situações nada convencionais que os 8 personagens vivem na modesta casa do falecido Abreu. Talvez por isso me diverti tanto assistindo uma outra versão deste texto, que foi minha primeira experiência com o público.

A peça conta a história de Zélia, uma pobre costureira suburbana, inconsolável com a morte súbita de Abreu, seu querido esposo. Ao seu lado, o casal de amigos, Biga e Guiba, e a cunhada Eunice, seguram as pontas como podem no velório.

Biga, a fofoqueira típica, não tem papas na língua e vai detonando hilários comentários sobre o morto e a situação da viúva. A coisa começa ficar preta quando Teteo, um amigo do defunto, chega no velório e deixa escapar para Zélia que seu marido saia com uma tal de Sueli. Junto com esta descoberta vem a revelação que o defunto havia comprado com Teteo e Pé-de-mesa um bilhete premiado da loteria.

Mas onde está o bilhete? Só o morto sabe. A partir deste mote, VB reserva muitas surpresas e gargalhadas. Vale conferir essa que com certeza é a melhor das 14 peças adultas da fraquíssima XX Campanha de Populajkshfdgtesdxz do Teatro de Campinas. É a melhor não por que as outras foram fracas, mas porque consegue entreter a platéia com um humor ingênuo e sem apelações. Fiel ao texto original e com um elenco em grande harmonia.

O diretor Claudinei Silva, da vida no palco ao personagem "Pé de Mesa" e consegue manter em extrema ebulição as hilárias seqüências da história. Fabiana Mello como "Eunice" e Lúcia Helena Macedo como "Abigail" apimentam com muita graça e espontaneidade aquilo que parece tudo, menos um velório. E é exatamente Abigail o maior divertimento deste velório. Muito à vontade no papel e com muita identificação com a platéia, Lucinha consegue roubar todas as cenas em que solta suas estilingadas.


  Terça-feira, Janeiro 25, 2005


Depois de um ano em que grande parte dos melhores filmes foram de animação, é refrescante assistir finalmente um filme de gente grande. Closer - Perto Demais é sexy e sofisticado, mas esses adjetivos são utilizados da maneira mais perigosa possível. Eu já posso ver a horda enfurecida com o novo filme de Mike Nichols, especialmente as adolescentes que acreditam naquele grande amor ainda por vir. Mas "Closer" é a mais pura verdade, sem floreios nem firulas e na sua pior faceta.

O filme é baseado em uma peça de teatro inglesa, Closer, do britânico Patrick Marber. O clima intimista de teatro está presente a todo momento, praticamente só vemos os quatro personagens principais, o que nos aproxima ainda mais da trama, em um envolvimento quase que de identificação. Uma das falas centrais da peça acabou ficando de fora da montagem final do filme homônimo (apesar de ter aparecido no trailer do filme). A frase é algo como "Porque você jurou amor eterno para mim quando tudo o que você queria era apenas sexo?". Nessas palavras está a espinha dorsal da história de dois casais em Londres, que encontram, desencontram, se unem e separam no período de alguns anos.

Essa adaptação (cuja encenação no Brasil trazia o título traduzido corretamente, "Mais Perto"), "Closer" sobressai-se do fenômeno teatral dos anos 90, cuja exploração sem barreiras das relações baseadas principalmente na sexualidade era a temática do momento. Não pense que o filme não passa de duas horas de um artigo da Nova. Se todo filme que se preze defende uma tese, "Closer" atesta o papel cada vez menor do afeto nas relações "amorosas" contemporâneas. E o faz com tamanha perspicácia. Em "Closer" as palavras são como tratores e as pessoas as usam para atropelar umas as outras. Não há sabão nessa estratosfera que limpe a boca suja de "Closer".

A exploração das inter-relações humanas não é estranha para o diretor Mike Nichols, que é uma das poucas pessoas que já ganhou os 4 prêmios mais importantes do showbizz americano: Oscar, Emmy, Grammy e Tony. Apenas Barbra Streisand, Mel Brooks e Rita Moreno também conseguiram esta proeza. Nichols cria no espectador a angústia dos protagonistas: em cena, nós estamos presos a uma pessoa que não particularmente gostamos, porém não podemos escapar dela - surge uma necessidade de falar tudo aquilo que estamos sentindo, fica impossível ficar em silêncio. O espectador não consegue se acomodar num personagem apenas, sempre queremos estar com aquele que não está em cena. Algumas cenas que começam cômicas ou simpáticas eventualmente caminham para o incômodo, como por exemplo, a (excelente) cena do sexo virtual entre Jude Law e Clive Owen, que revela-se surpreendentemente longa, nos revelando uma conversa que se torna cada vez mais imunda, bizarra e reveladora.

As músicas do filme estão intermitentes em todos os setores técnicos do filme e eu gostaria que você prestasse atenção em uma certa cena para solidificar essa afirmação: perceba a trilha-sonora ao fundo na cena em que Clive Owen e Natalie Portman encontram-se juntos no clube de strip: "Smack my bitch up" (aquela mesma do Prodigy) e "How soon is now" (aquela mesma do The Smiths) - colocadas lado-a-lado, as canções cobrem todo o argumento do filme: o menosprezo sexual e a carência angustiante. Isso é confirmado pela canção que abre e fecha o filme, "The blower's daughter" de Damien Rice, na realidade, quando essa música tocou nos letreiros, eu já sabia que tinha me fodido e que não haveria escapatória.

Por ser uma peça, os atores são a força de "Closer" - e o texto dá a cada um deles um momento sob os holofotes. Jude Law está absolutamente desprezível como o escritor hedonista e obcecado consigo mesmo; Julia Roberts consegue manter uma sólida atuação contendo-se como a indecisa fotógrafa (a "vilã" do filme); Natalie Portman, mais uma vez, está de se adotar como o discutível centro moral da trama, pois sua personagem vive da exploração da sexualidade, mas anseia pelo verdadeiro afeto. Mas o show é de Clive Owen. Seu personagem é, a princípio, um pervertido pegajoso que, feito de gato-e-sapato, descobre as regras do jogo e diverte-se ao manipular àqueles de quem quer se vingar. Todos, porém, estão absorvidos demais em suas cruzadas pelas próprias satisfações pessoais e, numa sociedade sexualmente deslumbrada, descobrem que a companhia nem de longe traz consigo a verdade.

"Closer" é um tapa na cara de quem usa o cinema como combustível para fantasias de romances maravilhosos. Não é que o amor não exista, mas é inegável que "Closer" advoga muito bem a afirmação contrária.


  Segunda-feira, Janeiro 24, 2005


O Guarani do técnico Armando Renganeschi se prepara para a viagem à Colômbia, onde vai disputar uma série de amistosos. Moças da cidade aguardam ansiosas a inauguração do Cine Alvorada. É começo de outono e a temperatura começa a ficar mais amena. Menos no Palácio dos Azulejos, de onde o prefeito Ruy Novaes, do Partido Libertador, no início de seu segundo mandato, acaba de iniciar uma disputa judicial com o Jockey Club por causa do uso de uma área pública. Naqueles dias, os ouvidos do prefeito estão atentos às informações passadas pelo governador Adhemar de Barros, do Partido Social Progressista, sobre a situação política no País. É nesse clima que Campinas recebe a notícia do golpe militar que mergulha o Brasil numa ditadura, da qual se livraria apenas 21 anos mais tarde. Em meio a esses acontecimentos que uma jovem e promissora atriz amadora ensaia para repetir o sucesso da estréia da peça Rapunzel, encenada no Conservatório Musical Carlos Gomes: Regina Blois Duarte.

Calma... você não está lendo o site errado. Para analisarmos Rapunzel, nova produção de infantil que o CCG apresentou na XX Campanha de Popularização do Teatro, precisamos retornar a 31 de março de 1964, quando a campineira Regina Duarte estreou a 1ª versão desta peça realizada pelo Conservatório e que durante quatro décadas multiplicou-se em diversas versões pelos palcos da cidade promovendo seus jovens e promissores atores.

A história todo mundo já conhece: menina bonita presa em uma torre, longas tranças, tem a bruxa e é claro... o príncipe. Ah! Me esqueci do principal... todos viveram felizes para sempre. O que poucos ainda se preocupam, é que 40 anos depois Campinas está inteiramente mudada, ganhou fama de cidade de oposição, transformou-se numa das principais metrópoles do País. O agito diário em nada lembra a tranqüilidade que imperou na cidade quando os militares depuseram o presidente João Goulart, em nome do combate à corrupção e do restabelecimento da ordem. O cenário bonito de uma cidade aconchegante deu espaço para o caos urbano, a violência e o desemprego.



Campinas tenta se enganar na ilusão de ser um pólo de produções artísticas, arrotando para todos os lados que seus espetáculos são exemplos de qualidade e bom gosto, porém terá um fim trágico se não começar a olhar para frente e esquecer um pouco o seu passado. Prova disso é a tal XX Camppaxswtnhabsgdghdghd... de teatro. Que saco!!! Já deveria ter parado lá pela XIII. Nem a nossa promissora Regina é mais a mesma. Depois de expor sua opinião no horário eleitoral gratuito em 2002, dizendo estar temerosa que Lula (então candidato à presidência) esfarelasse as conquistas do Plano Real e de que não tiraria do papel nenhuma promessa social, virou alvo da pancadaria de muitos artistas e de lá para cá está meio na geladeira da Globo até conseguir requilibrar sua imagem.



Enquanto vivemos do passado, nossos vizinhos mais próximos como a Unicamp, que deveríamos ter como parceiros e aliados na tentativa da construção teatral, alcançaram em 2004 a consagração com seu Shi-Zen, 7 Cuias, que viajou o Brasil e não deu nem uma paradinha no Centro de Convivências. Além disso, exportou seu talento para a minissérie Hoje é dia de Maria!, na criação e concepção da direção de arte e dos personagens.

Está na hora da do conceito "Rapunzel" crescer...


  Quarta-feira, Janeiro 19, 2005


O grupo Cia Arco-Íris de Valinhos, estreou na 20ª Campanha de Popularização do Teatro de Campinas, o seu espetáculo Soltando verbo, de Zé Carlos de Andrade. Quem quiser ainda pode assistir hoje a última apresentação, no Centro de Convivência Cultural. O ingresso custa R$3,00... se bem que o estacionamento logo a frente custa R$7,00.

A peça aborda a comunicação literária com piadas, poemas, sátiras e várias histórias que levam o público a uma viagem com muita criatividade. O enredo não permite a platéia um minuto de distração, misturando folclore e gramática e até mesmo pluralidade cultural, o texto é na verdade uma declaração de amor a Língua portuguesa. Tudo serve como material a ser usado para ensinar de forma divertida. Usando uma linguagem fácil de interpretar, os quatro personagens adolescentes levam o público a conhecer desde os primórdios da história do homem até os dias atuais, dando ênfase aos temas brasileiros.



Zé Carlos de Andrade parece que se define melhor quando analisamos sua obra de forma didática. No texto "Um Tupi tangendo um alaúde", a vida de Mário de Andrade é encenada com ênfase nas provas de vestibular e rodou por diversas escolas e cursinhos do país. "Soltando o Verbo" não é assim tão aplicável, sua preocupação gramatical está mais interessada no cotidiano ou até no dito popular. Prova disso é a hilária seqüência onde atribuem a origem do samba brasileiro a uma briga de facas entre malandros cariocas, com um jogral de "eu ti cutuco, eu ti cutuco, eu ti cutuco...".

Em 45 minutos de apresentação, no final ainda somos levados para dentro da obra de Ariano Suassuna, "O Auto da Compadecida". É ai que entra o nosso versátil Amadeu Tilli renasce o seu João Grilo, personagem que lhe rendeu vários prêmios e que mesmo com a massiva popularização da história pelo cinema e televisão, conseguiu entreter a platéia com bastante carisma.



Não posso encerrar sem fazer nenhum comentário sobre a goteira que existe no meio do palco do Centro de Convivência. Durante todo o espetáculo, além dos atores terem que se preocupar com todo o ritmo e marcação da peça, eles ainda tiveram que se superar para que a platéia não prestasse mais atenção na goteira do que neles. É uma vergonha o ator ter que se submeter a uma cena como essa em um teatro como o do Centro de Convivência... digo isso, porque a goteira já vai fazer aniversário naquele lugar!


Entrevista
JOSÉ CELSO
MARTINEZ CORRÊA

Neste momento do Oficina, que significado tem a montagem de A Luta?
A Luta é a coisa mais importante que já fiz em toda a minha vida, porque coincide com o clímax da própria história do Oficina, que está num momento de crescimento — e de muitos obstáculos também. Os Sertões é um projeto de muitos anos, escolhido como metáfora poética para enfrentar uma luta entre o desejo de crescer, transformando a pista do Oficina em um teatro-estádio, para fazer com que ele chegue à multidão. Eu acho que este teatro, da multidão, é o mais forte no mundo em todos os tempos. Estamos na iminência de chegar aqui onde chegou o teatro grego — até mesmo ultrapassá-lo —, onde chegou Shakespeare. Estamos a ponto de criar um teatro realmente popular, carnavalesco, orgiástico, um teatro total com toda essa cultura da mestiçagem, antropofágica, que, num certo sentido, tende a ser hegemônica no mundo. Ela tem uma riqueza que a cultura do capitalismo — puritana, do bem e do mal, do palco italiano, do convencional — não tem. E essa é uma luta que se confunde com a luta de quebrar os cânones que separam a arte do povo. Que o teatro saia da gaiola do pensamento decadente e que se ligue à multidão, criando uma coisa tão forte quanto a música popular, o cinema, o futebol, a arte de viver do povo brasileiro. Também é uma luta de transformação do próprio espaço cênico, que precisa se misturar com vídeo, música, dança, artes plásticas...

O Rei da Vela é uma peça oswaldiana, tropicalista. Como você define Os Sertões?
Os Sertões é um filho direto de O Rei da Vela. Oswald de Andrade foi uma revolução. Quando ele criou a antropofagia, disse: “Eu sou o primeiro pós-moderno”. Em 1928! O Manifesto Antropofágico é realmente a constituição do povo brasileiro — a surreal, não a legal. É uma cultura caminhando, é uma boca que está crescendo, devorando cada vez mais. O Oswald é um filósofo da importância de Nietzsche. É um poeta-filósofo, ele tem a importância dos gregos. Só que o Brasil não tinha ferramentas, e não tem ainda, para compreender a grandeza dele.

O que a literatura de Euclides da Cunha, comparando com Oswald, trouxe para a dramaturgia do Oficina? E o que ela tem a ensinar para a cultura, para a sociedade brasileira?
O próprio Oswald dizia que, na literatura brasileira, havia, de um lado, Machado de Assis; de outro lado, Euclides da Cunha. Machado era extraordinário porque mostrava as coisas como elas são: as contradições, a sociedade escravagista, patriarcal. E ria disso tudo. Aliás, ele foi um dos únicos que defendeu Antonio Conselheiro. Já Euclides anuncia a emergência do povo brasileiro, que reage não só pela violência, mas também pela cultura, como acontece hoje com o hip hop, os carnavais todos, a cultura religiosa... Eu acho que, com Euclides, praticamente começa a antropofagia, misturando as linguagens científica, parnasiana, indígena, sertaneja. Os Sertões é um livro em que a língua começa a se miscigenar.

Entrevista para a Revista Bravo de março/05


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